Destaque da comunidade: poesia em pauta!

A inocência da poesia…
Já viste, como é bela a aurora que tons de rosa há no alvorecer? Quanta beleza pelo espaço afora tudo isso só para o sol nascer?”

Innocência Theodorica Sant’ana Julia

Durante o mês de junho os adolescentes do CJ Afago trabalharam dentro do Projeto Cartografia o tema poesia. Os jovens tiveram a oportunidade de ver, sentir e fazer poesia, além de reconhecer a potencialidade do território em que vivem. Destacaram na comunidade, uma senhora de 91 anos, a poetisa Innocência Theodorica Sant’ana Julia! Durante duas semanas tiveram contato com suas poesias e no dia 11 de junho receberam  visita da jovem, de alma, que partilhou sua história de vida.

Nascida em Mariana-MG, em 1º de julho de 1924, chegou a São Paulo aos 24 anos de idade, mas jamais esqueceu suas raízes muito bem plantadas e regadas em sua cidade natal, fortificando a identidade que cada um carrega, a importância de se sentir parte de algo, valorizar o espaço em que vivemos. Innocência sempre gostou de escrever e, em 1935 seu primeiro artigo foi publicado na primeira página do jornal escolar. Entre 1944 e 1948, teve a oportunidade de cursar o então conhecido ginásio, hoje ensino fundamental II. Ela se dedicou intensamente aos livros e conheceu uma professora poetisa que a ensinou a metrificação de versos. Alguns professores já notavam sua aptidão para a poesia , sempre foi motivada, e a cada dia ela se encantava mais e mais pelas letras e pelo jogo de palavras.  Assim, completar os estudos foi uma vitória para Innocência, pois, na época, o preconceito era muito mais forte e ela seguiu adiante, sempre acreditando e obtendo conquistas. “Para receber os dons de Deus precisamos apenas cultivar a bondade e a honestidade. Sempre senti que há mais exigências, de nós negros, mas um gesto bondoso atrai a todos”.

Confira abaixo mais  trechos da entrevista:

Nome: Innocência Teodorica Sant’Anna
Sexo: Feminino
Idade: 91 anos
Estado Civil: Viúva

Como era a sua família?
Era uma família feliz, desde sempre minha mãe me ensinou a ser uma pessoa boa, e que apesar das dificuldades não poderíamos deixar de acreditar que poderíamos superá-las. Nós éramos uma família muito religiosa, mamãe me ensinou a rezar e a sempre acreditar em Deus.

Tem filhos? Como é o seu relacionamento com eles?
Sim, tenho dois filhos adotivos.O nosso relacionamento é de cumplicidade e de muito amor.

Como e onde foi a sua infância?
Foi uma infância normal como a de qualquer criança, sempre brinquei muito. Naquela época tinha muito verde, terra, eu tinha muito espaço para brincar, andava descalça. Ah, como eu gostava! Eu fazia os meus próprios brinquedos, costurava minhas bonecas de pano, improvisava bolas para brincar com os vizinhos.

Como foi a sua relação com a escola? Você gostava de estudar?
Sempre fui uma aluna exemplar, gostava de estudar e os meus professores em suas avaliações diziam aos meus pais que eu era uma adolescente muito estudiosa e aplicada. Por isso, reforço à vocês a importância de estudar e se dedicarem a leitura, guardar na memória coisas positivas.

Há quanto tempo vive neste bairro?
Cheguei aqui em 1989, 26 anos de vida comunitária

Qual é a sua visão sobre o bairro?
Muito boa. Apesar que existe muita violência, mas já foi pior. Hoje estamos bem.

Desde quando você chegou aqui houveram muitas transformações?
Sim, muitas. Antes não tinha um transporte de qualidade, eu não conseguia chegar ao centro da cidade, não tinha posto de saúde. Hoje tem tudo, até um supermercado! Vocês podem rir, mas há uns anos atrás não tinha, a maior parte das coisas aqui, por ser perto da represa, eram campos verdes.

Que situações positivas e negativas o bairro trouxe para a sua vida?
Condições boas para criar meus filhos e pude comprar minha casa própria. Não tenho o que reclamar do bairro.

Houveram situações em sua vida que você pensou que não conseguiria vencer?
Sim, em meu 1º emprego sofri descriminação racial, eu era datilógrafa.Um dos sócios da empresa fez de tudo para me prejudicar, pois, era muito raro uma jovem negra ter aquela profissão. Em determinado período todos os funcionários tiveram aumento de salários e eu fui a única funcionária a não  receber esse aumento, ao questionar os meus superiores não tive resposta, recebi um sermão desnecessário e ainda me falaram que se eu não estivesse satisfeita, era só pedir as contas. Mas, eu precisava do trabalho aguentei calada.

Como você reagiu diante delas?
Com muita lágrimas e tristeza, pois não me conformava e às vezes não conseguia entender porque as pessoas me tratavam daquela maneira, como se eu fosse estranha, isso me machucava. Diante de todo preconceito e discriminação foram momentos muito difíceis, mas como tive uma educação regada procurei controlar minhas tristezas e seguir em frente.

Você escreve sobre elas, o que te inspira?
Sim, muitas das minhas poesias vem de experiências marcantes e fortes, escrever  significa colocar para fora algo muito pessoal, algo meu e que ajuda a levar coisas positivas às pessoas. Eu sou muito religiosa, acredito muito em Deus e Nossa Senhora e isso se reflete em minhas poesias.

Quantas vezes o mundo te deu as costas, dizendo não, e você reagiu?

O mundo sempre pode nos dar as costas, mas o importante é se apegar à Deus, eu sempre fiz isso, tive apoio da minha família nas horas de sofrimento, e peço à vocês que amem suas mães, amem todos os seus familiares, porque eles são as pessoas certas para apoiarem vocês.

Que sentimento te move na busca de dias melhores?

O recomeçar sempre, o outro dia, isso me conforta muito, saber que as dificuldades iriam passar, eu tenho uma grande fé e minha família é o meu alicerce. Eu sempre tive pena das pessoas que me  maltratavam, sei que de alguma forma essas pessoas serão cobradas por suas atitudes.


Você se considera uma pessoa de sorte?

Sempre me considerei uma pessoa de muita sorte, e a vida me ajudou a aprender a superar as dificuldades, os maus tratos, o mau humor, as grosseiras das pessoas que não me queriam bem. Só o fato de ter conseguido esse emprego de datilógrafa naquela época já me considerava uma pessoa de sorte. Não falei, mas esse emprego veio até minha porta, um amigo da minha família que me arranjou, estava em casa escrevendo minhas poesias quando este senhor apareceu na minha casa e convidou-me para trabalhar na empresa em que ele era sócio.

Você se considera uma pessoa feliz?

Esta é a pergunta mais fácil. Sim! Considero-me uma pessoa muito feliz, olhem a minha idade, sou lúcida e consigo fazer muitas coisas sozinhas, como por exemplo, andar de ônibus. A única coisa que me atrapalha um pouco são as minhas pernas que andam fracas, mas o meu cérebro e coração estão bem fortes.

O que você diria para aqueles que hoje enfrentam situações parecidas com a que você vivenciou, ou outras mais difíceis, para que eles prossigam?

Que não tenham medo dos desafios e que não fiquem desaminados com os obstáculos que a vida colocar, isso nos ajuda a crescer. Mais uma vez eu afirmo que só consegui superar todos os desafios porque sempre tive minha família muito próxima a mim. Sempre tive esperança e muita fé em Deus.

Por que você acha que foi escolhida e eleita pelos jovens para representar este bairro como “Destaque da Comunidade”?

Porque acho que temos muitas coisas em comum, vim de uma família pobre, mas muito honesta e trabalhadora, como tenho certeza que a de vocês também é. Tive muitas dificuldades como já contei, e se eu consegui vencer esses desafios no decorrer dos anos, tenho certeza de que cada um de vocês irá vencer sem precisar de tanto esforço, porque hoje são tempos diferentes. Eu acredito muito em vocês, hoje em dia há grupos de jovens atuantes, mas muitos acabam se desligando de algum tipo de fé. Muito se deve aos programas televisivos apelativos que não colaboram para a formação religiosa e cidadã. Além disso, o mundo tem muito a oferecer aos jovens que, indecisos, optam por caminhos incertos. Queridos, escolham o melhor da vida, pensem bem no futuro, e se vocês têm boas atitudes hoje, elas se refletirão no amanhã.

 

Nuvens

Sonhei ser nuvem em meu pensamento

Branco? Negro? Não importa a cor.

Talvez rósea no firmamento,

qual renda alada inspirando amor.

Se branca, como um rolo de fumaça

deslizaria pela amplidão

distribuindo com leveza e graça

sombras benfazejas pelo chão.

Se cinza, de chuva carregada

sem raios, sem trovões a ribombar

irrigaria as glebas semeadas

e faria a sementinha germinar

Ah! Se essa nuvem existisse mesmo

em sua breve passagem sobre a terra

eu a faria derramar a esmo

toda ternura que o amor encerra.

Innocência Theodorica Sant’Anna Julia – São Paulo, 1-10-1996

 

Afago - cartografia