Tudo que não seja risível é questionável – Pensando o humor

por Carlos Biaggioli*

Outro dia, alguém comentou ao meu lado: “De que tanto se ri num mundo desse?”. Não era alguém conhecido, eu estava em trânsito, mas aquilo caiu em mim, feito cocô de passarinho, isto é, trazendo semente no meio do cheiro ruim. E é justamente sobre a importância e a influência que o bom-humor tem na saúde pessoal e social (já que trata-se de algo altamente contagiante – e até mesmo contagioso!) que hoje eu quero, aqui, conversar com vocês.

Eu vivo repetindo: “o grau de bom-humor está intrinsecamente relacionado à capacidade de perdoar”. Nosso riso – seja em que nível e intensidade ele se dê – traduz o grau de desapego que, naquele momento, aquilo representou. Tem coisa mais chata do que explicar piada? É o mesmo que, após os fogos explodidos, o casal se meter a filosofar sobre a tessitura das multicores deflagradas… Mas peço que, no entanto, façamos um esforcinho para tentar compreender a questão ora colocada. Tudo bem?

Brincando um pouco no jardim da etimologia, no Latim “perdão” vem de perdonare: “per” (total, completo) e “donare” (dar, entregar, doar). No Grego, o termo pressupõe cancelar, remir, liberar. Duas palavras-chave, então, advêm daí: 1) “desapego” – “des” (negativo) e de “apego”, que vem de pegar, ou seja, “trazer consigo, ter em si, pegar”; e 2) “liberação”, que dita tornar livre (ou quite), desobrigar. E seguindo esse voo, logo vamos para o deixar ir, odesligar, o desconectar e assim por diante…

Desapego. Claro, este não é um processo comumente tranqüilo. Até porque, convenhamos: tem muita coisa que, no fundo, é ruim, mas que, na superfície, tem cheiro bom, não é? Basicamente falando, então, o trabalho todo consiste em separarmos, na árvore que somos, a folha viçosa da ressecada.

Eu sou do time que acredita ser o auto-perdão o maior desafio da paróquia! Como é difícil sair com paz interior da “mesa de negociação” com a própria consciência – reflexo de todos os nossos desapegos e liberações. Se tanto dizem que “ninguém é santo”, também é fato que nem todo mundo é capeta. Quem, durante a vida, já não experimentou momentos em que conseguiu perdoar a si mesmo?

Lá estou eu: às voltas com meus próprios rancores, ódios, dissidências, divergências, incongruências, intolerâncias, intransigências, polêmicas, aflições e o “escambau-a-quatro”. Por mais que eu queira eleger os alvos disso tudo, com um mínimo de dignidade terei de reconhecer que, no fim de todas as contas, tudo não passa de responsabilidade minha; de formas criadas pelo meu próprio pensamento e por minhas maneiras de agir e/ou reagir. É isso. Mas, tantas vezes imbuído de um auto-heroísmo sem o menor cabimento, opto por carregar o fardo por tanto tempo que, uma vez habituado, fica-me difícil imaginar a vida sem aquilo tudo.

É importante, então, um primeiro passo: reconhecer que todo fardo (seja ele realmente qual for) só pertence mesmo a quem o carrega. Os “outros”, as situações, o mundo funciona apenas como lente ou pano de fundo enquanto dure aquilo tudo. É tudo sempre uma questão de mero ponto de vista.

Levando isso em conta, volto a chamar a atenção para o mesmo importante detalhe, sobre o qual recai grande parte da responsabilidade das nossas desventuras: a sensação de heroísmo que comumente insufla a alma da gente e que nos leva a continuar empunhando a bandeira do apego, da mágoa, do rancor, da aflição, da tristeza… Há inúmeros caminhos que podem nos levar para longe desse labirinto…

O Humor é um deles. Mas, antes de mais nada, que tal esclarecermos algumas diferenças, aqui?

Não me refiro ao riso que vem do sarcasmo, fruto de zombaria ou de escárnio. Nem tampouco à ironia, essa inversão do real significado de algo em determinado contexto, tão comum, por exemplo, quando a gente diz o contrário do que está pensando. Muito menos falo sobre o riso de cinismo, típico de quem demonstra descaso pelas normas sociais ou por uma moral pré-estabelecida, sinalizando, aí também, uma ausência de prudência. Sobre o deboche, então, tão ligado à libertinagem e à devassidão, nem se fala!

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É do riso que “lava”, que faz as toxinas do cotidiano se desprenderem das células do sentimento e do pensamento que estamos falando aqui! Neste sentido, não há absolutamente nada que uma boa e corajosa gargalhada não resolva. É o vexame mais saudável que existe na face dessa terra, minha gente!

A gente só ri daquilo que nos diz respeito, mesmo quando aquilo pareça nos pegar de surpresa. E, muitas das vezes, até acaba pegando mesmo, já que nosso olhar vai se embotando, vai se viciando, vai se restringindo a um raio cada vez menor de penetração no campo imenso e infinito da Vida. Então, voltando ao “cocô do passarinho”, que gerou essa nossa prosa de hoje, há, sim, sem a menor sombra de dúvida, muito do que se rir, nesse mundo-de-meu-deus, como não?!!

Aliás, tudo que não seja risível é questionável. Absolutamente tudo, sem exceção. Se já definimos o riso como sendo saudável ao organismo humano e social e, além disso, como sendo também “o antídoto do medo”, como disse Umberto Eco, que história é essa de proibi-lo? Estava eu em praça pública uma vez e vi uma pessoa tentando proibir outra pessoa de fazer algo. Aquilo gerou no povo ao redor um clima denso e tenso, é claro. Mas a segunda pessoa achou aquilo muito engraçado e simplesmente riu da proibição decretada. A energia dessa reação foi tão gostosa que a primeira pessoa imediatamente percebeu o patético da situação e riu junto com a outra. E, aí, vocês sabem como é, não é? O “perigo” do riso está justamente no fato de ele ser contagioso e contagiante… assim, em pouco tempo, a gargalhada estava instaurada naquele lugar. Quem é que via cabimento ou até mesmo se lembrava do mal-estar gerado pela tal proibição?

Se eu não quero que riam de mim ou daquilo que acredito (que, no fim das contas, também “é eu”), é porque tenho medo de perder algo. E vou além: esse medo de perder, no fundo, é o mesmo medo de morrer, ou seja, de deixar de existir – como se eu só pudesse existir sendo de um único jeito, custe o que custar. Isto é fundamentalismo e, assim sendo, é questionável, pois a vida é uma colcha de retalhos, tecida com a diversidade; é uma ciranda de diferentes – seja ela pensada em meio “aos outros”, seja considerada no foro íntimo de cada um. Contrastes! Contradições! Dicotomias!

Então, é essencial que – até pela mais legítima defesa – a gente ria, ria muito, muito, muito… e de si mesmo, principalmente. Não há outra maneira de renascer em vida. Não há razão que supere essa energia transformadora e transmutadora.

Mas atenção, muita atenção! Não estamos, aqui, gravitando filosoficamente sobre o tema, não. Estamos falando de algo muito prático, que requer treino e prática cotidiana, em casa, no trabalho, nos encontros sociais, na hora de deitar a cabeça sobre o próprio travesseiro. Estamos falando de limpeza!

 

* Carlos Biaggioli é membro fundador do Teatro de Rocokóz. Palhaço, ator, escritor, dramaturgo, roteirista, diretor teatral e escritor – autor de “A Curva do Rio” (nove contos sobre ritos de passagem, Editora Porto de Ideias) e de “No Divã do Palhaço” (Editora Kazuá, a saga de um palhaço paraguru-filosofático especializado em Filosofagem & Psicologice à toa). Este artigo faz parte de um novo livro do autor. Email: biaggiolic@yahoo.com.br