Quando me aceitei gay!

Se aceitar homossexual talvez seja uma das tarefas mais complicadas que um gay possa enfrentar.

Talvez até mais complicada do que se assumir porque no fundo essa aceitação está ligada ao que a gente ouve desde quando somos crianças àquilo que nossos pais, amigos e familiares pregam como “normal” e “anormal”.

Por mais aberta que possa ser a nossa cabeça, sempre vai existir aquele medo de colocar pra fora tudo o que sentimos, porque junto com isso sempre vai caminhar a aprovação do outro.

Mas não é impossível.

Sempre soube que era gay, mas sempre me escondi. Falar de sexo com meus parentes sempre foi um tabu. Eu sempre quebrei tabus, e sempre fui silenciado pelo silêncio dos outros.

Aos dezoito anos tive meu primeiro relacionamento oficialmente gay. Antes eu ficava escondido. E me escondia dele também. Não tinha coragem de peitar o mundo, andar de mãos dadas e só de pensar em dizer “sou gay”, me tremia todo.

Neste primeiro relacionamento me senti na obrigação de me entender dentro deste mundo, não buscando explicação de por que eu era gay, e tals, mas de entender como enfrentar uma sociedade que cresce conservadora e homofóbica.

Tive que passar no psicólogo e  isso não foi algo imposto pelos outros, mas por mim, por essa busca interna que eu precisava ter, mesmo que no fundo eu não fosse achar nada.

Me aceitar gay foi entender quem eu sou, quem eu gostaria de ser e até como eu poderia ser lembrado. Não estamos de passagem. Todo mundo possui uma missão nessa vida. A caminhada é longa, como todo tipo de caminho.

Desistir nunca foi meu lema, mesmo que lutar às vezes me deixasse cansado.

Precisei de um tempo pra mim, pra pensar como conduzir aquele relacionamento que exigia que eu estivesse bem comigo, não tem pior coisa que ter alguém do nosso lado que não está 100% consigo, imagina pra relação?

Ao final pude entender que eu era assim, o ser humano que cresceu criado pelos avós, rodeado e protegido por toda família, que não vivia com a mãe e que tinha perdido o pai antes dos cinco anos.

Eu entendi que sendo gay, nada mudaria muito na minha vida, talvez tivesse a visão mais ampla pra quem sabe poder flertar dentro de algum coletivo ou simplesmente poder beijar quem eu quisesse, sem medo de ser feliz.

Entendi que para tudo na vida é preciso cautela, mas que existe espaço pra todo mundo e que todo mundo tem a obrigação do respeitar o outro.

Entendi que sofreria por amores perdidos, paixões repentinas e amizades não sinceras, mas que no fin de tudo, sobreviveria.

Entendi que a família é base importante sim, mas que família nem sempre é de sangue, o acolhimento é amor, amor de constrói e a construção se baseia na convivência, e a gente convive todos os dias com muita gente, ou seja, somos uma enorme família.

Entendi que o fato de eu gostar de um ser humano com o mesmo sexo que eu jamais me faria doente, problemático ou qualquer coisa criada por dogma religioso, pelo contrário, me mostrou que a lei maior que a gente pode propor e emanar ao Universo é o amor! 

 

Aceitar-se é um processo, e com ele vem diversos benefícios, inclusive para a saúde. A liberdade de ser quem se é, de escolher amigos que te respeitem e de ser livre para amar quem se quiser afeta diretamente nossa autoestima, nossa saúde psicológica. 

Na Constituição Federal de 1988, o conjunto de leis que rege o Brasil há o seguinte artigo.

” Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: 

      I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; 
      II – garantir o desenvolvimento nacional; 
      III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; 
      IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.”

Todo cidadão brasileiro deve ser portanto respeitado, e aceitarmos uns aos outros é o primeiro passo. O respeito por si próprio e pelos outros não só faz com que nos sintamos bem, mas também é um de nossos direitos constitucionais.

A homofobia mata todos os dias no Brasil. Já falamos sobre isso aqui no Geral.