A mocinha e o caroço

Leia o texto da nossa correspondente jovem Jennyfer Rosa!

 

De uma hora pra outra tudo mudou na vida da mocinha.

Teve de ser mãe cedo demais. Mal treinou com as poucas bonecas que tinha, e logo todo aquele conto de fadas, a brincadeira das tardes ensolaradas se fez real. Tão real que era difícil de acreditar. O carocinho estava lá. Na barriga de criança de 15 anos, pronto pra tornar-se uma outra criança.

Quando soube, a mocinha só sabia chorar.

Já havia desconfiado quando há meses seu sangue sujo não saía. Fez o primeiro teste barato de farmácia e não queria acreditar no resultado. Fez outro. Não tinha jeito, o bebê estava feito.

O medo de contar aos pais que seriam avós era tão grande que por alguns instantes a mocinha pensou em arrancar aquele maldito caroço que de uma hora pra outra havia mudado toda a sua vida. Pra pior.

“Como foi acontecer isso logo comigo?” Pensava.

O fato é que o feto resultava de seu primeiro feito sexual. Seu primeiro amor. Era pra ter sido só flor… Só lembrança boa e felicidade. Mas era outra a sua realidade.

Contou. Primeiro até 10. Foi em direção da mãe. Achou que contar até 20 seria melhor.

Tomou fôlego e foi logo dizendo tudo de uma vez. A mãe até que aceitou bem. Entristeceu pois sabia que a filha era frágil demais, mas isso era só mais um motivo pra que ela a apoiasse mais. A mãe contou ao pai, que contou à irmã que contou a todo mundo. Pobre mocinha. Percebeu que todo o bairro a olhava diferente. Estava difícil.

Mas sentiu uma força que nunca tinha sentido antes. Uma vontade de se superar. Porque não era mais só ela. “Graças a Deus”, pensou. Percebendo que amava o bebê. Já não era um caroço. Era um bebê, um lindo bebê, o bebê dela.

O pai gostou da novidade. Encheu a casinha do bebê de beijos e as duas crianças ficavam sonhando juntas em como seria o nariz, a boca, o sorriso… O inferno tava virando paraíso.

A barriga cresceu. E é aí que a coisa enrola.

“Como é que eu vou pra escola?”

Apesar de muito feliz, a moça tinha vergonha de tão nova já ter o peso de uma criança em seu corpo. Tinha medo de como seria, se conseguiria continuar.

Continuou. Pensava sempre no bebê. Acima de tudo.

A moça que antes tinha medo de perder a edição da revista de seu ídolo, agora tinha medo de morrer no parto. Explodir a barriga, ter infarto… Medo bobo de criança com tarefa de adulto.

O bebê nasceu. Saudável. E tocar o seu rosto no rosto do bebê foi o momento mais feliz da sua vida até então. Percebeu que dentro de si já não batia mais só um coração.

Queria lutar até o fim pra que o bebê tivesse de tudo. E assim fez.

O pai da criança já não era mais o seu amor. Mostrou que era novo demais pra assumir tal responsabilidade. Só sabia amar o bebê. Mas a criança precisava comer. E disso ele não deu conta.

A moça, que agora já se tornará mulher, precisou ser mãe e pai.

Cuidou daquela criança com todo o amor do mundo. Educou. Alfabetizou. Ensinou que não se joga lixo na rua. Ensinou a ver formato em nuvem e prestar atenção na lua.

Ensinou a ser gente. Gente que respeita, que ama, que luta. Como ela sempre fez.

Vitoriosa, guerreira!  Mais uma vez.

Pois a criança aprendeu. E ela também, um tanto! Ser mãe lhe dava pela vida um encanto.

Um cuidado dobrado com a própria vida. A busca pelos sonhos maiores e maiores.

Sonhos de menina que se tornaram metas de mulher.

Se formou em psicologia. Quem diria?! Mulher; negra; vinda de periferia.

Sozinha…

Mais uma mulher que lutou. Que fez a flor nascer do asfalto. Que aprendeu a andar de salto alto. Que aprendeu a ensinar…

Conheço bem essa mulher. Tenho o grande privilégio de ter sido um dia o carocinho que ela mesma regou e deu vida. Me tornou mulher assim como ela.

Com todo o meu reconhecimento, meu carinho e amor.

Alessandra.

A sementinha que se tornou a mais bela flor.

E a todas as outras mulheres de garra que lutaram contra a realidade cruel do nosso mundo e tornaram-se mães. Não apenas doadora de genes. MÃES!

Parabéns pela força.

(O texto trata de uma história real: A história da minha mãe interpretada de uma forma poética e vista com os meus olhos. Não foi nada fácil, mas se minha mãe conseguiu, toda e qualquer mulher pode ir contra as estatísticas.)